Foto: LucaFazPhoto (CC BY-SA 4.0)

Thomas Bangalter questiona a IA na música: “A criação acontece a um nível mais profundo”

Antes de uma ideia se transformar em som, há uma fase difícil de explicar: experimentação, erro, instinto e surpresa. Para Thomas Bangalter, é precisamente aí que os sistemas de inteligência artificial baseados em prompts falham enquanto ferramentas criativas.

Numa nova entrevista à Chanel, o cofundador dos Daft Punk afirmou não ter grande interesse no uso criativo da inteligência artificial. A questão, explica, vai além dos debates sobre direitos de autor, dados de treino ou artistas falsos. Está na própria lógica destes sistemas, que pedem ao utilizador para descrever em palavras o resultado que procura antes de esse resultado existir.

“A minha relação com a criação e a minha relação com a arte desenrolam-se, na sua maioria, a um nível mais profundo, que não se expressa através das palavras”, disse Bangalter. Para o produtor francês, a parte mais relevante da criação não é apenas intelectual: nasce também da tentativa de perceber uma sensação e de descobrir o caminho enquanto se trabalha.

A posição ganha outro peso vindo de um artista que fez da relação entre humanos e máquinas uma parte central da identidade dos Daft Punk. Ao lado de Guy-Manuel de Homem-Christo, Bangalter criou uma das imagens mais marcantes da música eletrónica, mas os robôs nunca serviram apenas para celebrar a tecnologia. Em discos como Human After All e Random Access Memories, a máquina era usada para amplificar emoção, não para a substituir.

Bangalter não defende um afastamento da tecnologia. Sintetizadores, samplers e drum machines fazem parte da história da música eletrónica e podem tornar-se extensões diretas de quem os usa. A diferença, sugere, está entre uma ferramenta que abre possibilidades e um sistema que pede ao artista para definir o destino antes de começar a viagem.

Num momento em que a indústria procura tornar a criação mais rápida, barata e escalável, a reflexão de Bangalter deixa uma pergunta em aberto: será que a tecnologia está a expandir o instinto humano ou apenas a tornar o processo mais previsível?

A entrevista completa está disponível no YouTube.

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